Uma viagem pelo interior de São Paulo revela histórias pouco conhecidas de comunidades que quase desapareceram do mapa. No novo episódio do programa Boa Sorte Viajante exibido no último domingo (15), o jornalista e apresentador Matheus Boa Sorte percorre os distritos de Sussuí, Sapezal e Vila Elvio, lugares que nasceram impulsionados pela ferrovia e pelo trabalho no campo, viveram períodos de prosperidade e, ao longo das décadas, enfrentam transformações econômicas, decisões políticas e mudanças no modelo de transporte que provocaram o êxodo de grande parte de seus moradores. Durante o programa, é  mostrado como essas localidades ainda resistem graças à memória, às tradições e ao apego de quem decidiu permanecer.

Sussuí é um pequeno distrito rural pertencente ao município de Palmital, no interior do estado de São Paulo

A jornada começa em Sussuí, distrito de Palmital, a cerca de 12 quilômetros do centro da cidade. Fundado em 1914 como ponto de abastecimento das locomotivas a vapor da Estrada de Ferro Sorocabana, o pequeno povoado rapidamente se transformou em uma comunidade movimentada, com comércio ativo, escola, cartório, serviço postal e até cinema. No auge, em 1970, o distrito chegou a ter cerca de 358 habitantes. A moradora Dona Sueli recorda com saudade das festas religiosas, das brincadeiras nas ruas e das sessões de cinema improvisadas atrás da igreja. Com o declínio das ferrovias, a geada que devastou o café e o fechamento das fábricas de farinha de mandioca que sustentavam a economia local, o distrito perdeu grande parte da população. Hoje cerca de 30 moradores ainda vivem ali, preservando a igreja, a antiga estação ferroviária e as memórias de um passado movimentado.

A segunda parada da viagem é Sapezal, distrito de Paraguaçu Paulista, fundado em 1916 também por influência da ferrovia. Em seu período de maior prosperidade, o local chegou a ter cerca de dois mil moradores, com hotéis, farmácia, serraria, alfaiataria, banda de música e também cinema. Em 1938, um decreto estadual retirou o status de município da localidade, provocando a saída de repartições públicas, o fechamento da estação ferroviária e o início do esvaziamento da comunidade. Hoje cerca de 100 pessoas vivem em Sapezal, que tenta reinventar sua identidade por meio da produção artesanal, de pequenos empreendimentos culturais e do turismo de fim de semana. O distrito também guarda um importante legado cultural: foi ali que as irmãs Galvão, uma das duplas femininas mais importantes da música sertaneja, deram os primeiros passos na carreira. Entre os atrativos da região estão o memorial dedicado às cantoras e a Cachoeira do Orto, destino de ecoturismo cercado pela natureza.

A Vila Élvio é uma antiga vila industrial dos anos 1930 fundada pelo italiano Luigi Liscio.

A viagem termina em Vila Elvio, comunidade rural localizada em Piedade e criada a partir de um projeto idealizado pelo imigrante italiano Luigi De Lício na década de 1930. Ele adquiriu mais de dois mil hectares de terra com o objetivo de fundar uma colônia para imigrantes italianos, com infraestrutura completa que incluía escola, cinema, igreja, hotel e uma fábrica que chegou a produzir 35 mil camas por mês para o Exército brasileiro. Durante as décadas de 1960 e 1970, a vila chegou a ser considerada mais desenvolvida do que a própria cidade de Piedade. Mudanças nas leis ambientais e transformações econômicas levaram ao declínio da atividade industrial, mas cerca de 300 moradores ainda vivem na comunidade. A fábrica continua funcionando com novos produtos, enquanto moradores e jovens da região buscam preservar a história local e estimular o turismo. Ao percorrer esses três lugares, Matheus Boa Sorte mostra que, apesar das mudanças e dificuldades, a história dessas comunidades continua viva graças à resistência e ao amor de quem ainda chama esses lugares de casa.